23 de outubro: um bom dia para voltar

especialmente porque hoje é o dia dele, embora eu desconfie que, para esse escorpiano combativo, todos os dias sejam seus. portanto, hoje é um excelente dia para voltar, nem que seja para deixar registrado meu agradecimento a ele, presença diária e importante em minha vida. determinante, coisa que talvez ele nem saiba, para minha recuperação, para o fortalecimento da minha vontade em permanecer caminhando em meio ao caos e sob a tempestade. então, conectá-lo ao meu retorno é questão de justiça, ainda que este retorno dependa de fatores alheios à minha vontade.

hoje é dia dele e presenteá-lo fartamente é meu desejo e o que há de farto em mim dou a ele sem restrições de qualquer monta. é a minha palavra, os meus melhores votos, meu carinho, respeito, amor, amizade e gratidão.

e eu estou aqui, enrolando, adiando parágrafos, quando deveria, desde o início, falar dele. mas, convenhamos, Sr. Antonio Siqueira, discorrer sobre seus múltiplos talentos é tarefa árdua. um pesquisador musical, cronista, articulista, músico e, mais recentemente, comentarista (ou crítico?) em programa de rádio, demanda muito mais que uma simples postagem natalícia.
melhor mesmo, e esta é minha recomendação, que o leiam em seu delicioso blogue
Arte Vital.

um pouquinho de Antonio Siqueira, uma alma que vibra:

Uma canção desesperada

Não quero viver sem sentir o calor do teu hálito penetrando em minha boca
Saio de mim, reivindico teu sorriso com a autoridade dos amantes apaixonados.
O amor existe para poucos
A dor é mais popular
As hipóteses são muitas:
Delírios insanos, à flor da pele...
Múltiplas transformações, múltiplos sinais.

Canções são paliativos para a alma,
um desespero com calma

Canto, porque cantar é o porto seguro de quem ama estar vivo.

Antonioni, meu querido, que a vida sempre lhe sorria e você continue exatamente desse jeitinho, especial e iluminado.

te amo.

Marizoca.

no ar: agora é quase amanhã | brinquedo | o nono mandamento

a 36ª edição das Escritoras Suicidas está no ar com os temas agora é quase amanhã, brinquedo e o nono mandamento.

nesta edição, Marilia Kubota entrevista Virna Teixeira e Julya Vasconcelos. além das entrevistas, excelentes, contamos também com a participação das autoras: carol dibietsu, eunice arruda, gerusa leal, marisa toscana e mylle silva. e da ilustradora: simonia fukue.


boa leitura.

beijos

mariza lourenço

A poesia vive




Morreu Aníbal Beça, hoje, em Manaus. Morreu Iosif Landau, em
14 de agosto, no Rio de Janeiro. Morreu
Rodrigo de Souza Leão,
no último 2 de julho
. Mas a poesia resiste. Eterna. Absoluta.
Apesar da tristeza.



Mariza Lourenço & Silvana Guimarães
Editoras



TEMPO DE BUSCA


Aníbal Beça

Procuro por uma porta
que me abra um tempo mais sereno.

Pressinto que ela está por aí, talvez próxima,
à toa nos meus caminhos vagos.

Entre uma passada e outra
me apresso em tocá-la,
e ela na sua calma surda de madeira
se afasta para voltar ao estado de árvore.

Sinto que também ela procura por alguma coisa
com algo de vento mastigando capim.

Vez por outra escuto um mugido
rangendo entradas e saídas
trompa pastoral se fechando em tardes.

Meus amigos me dizem que possuem sua chave,
que são íntimos no entrar e sair.
— seja pela parte da frente seja pela parte de trás —
sabem até do seu humor
pela leitura enrugada dos múltiplos nós,
mas não podem emprestá-la.

Temem que eu não volte para devolvê-la.



O


Iosif Landau

Profundamente sensibilizado
ante o comportamento das espécies
geradas sem óvulo e espermatozóide,
e como a Verdade paira sobre todas as verdades,
assim deixo escrito com infantil raiva minha perplexidade
para que sobre ela se debrucem poetas e adivinhos
e a todos quantos se interessam com o próprio interesse.
Este meu lírico desabafo tão rico em significar nada
me aproxima dos abismos do céu e alturas do mar.
Vejo-me um Colombo que descobriu os índios
que teimam continuar vivos,
vejo-me um Marco Pólo que descobriu que
a lua da China era a mesma de Veneza,
vejo-me um Amundsen que penou ao chegar ao Pólo Sul
para descobrir que lá fazia um frio danado,
vejo-me o Astronauta que pisou na Lua
e descobriu que a sua mijada em nada difere
das mijadas terrestres,
e por fim só acredito numa verdade cientificamente provada,
que o círculo é a figura geométrica perfeita
e por isso o cu é redondo.



*


rodrigo de souza leão

pudera Deus negar os fatos
e vagar pelas pedras portuguesas.
mas tudo está sujo até o ápice.

Deus não pode ser tudo todo dia.
e não adianta eu me iluminar.
acender um fósforo é perigoso.

e não existem gravetos e pedras
para descobrir o fogo novamente.
para moldar um poema na pedra.

além de mim o que serei.
pra que me libertar numa prisão?
a maior clausura sou eu.

Iosif Landau

Iosif Landau partiu ontem, dia 14 de agosto, às 22:00 horas.

a certeza de sua presença, no entanto, é fato: em seus inúmeros livros, textos de seu blogue e no coração de todos que o amam.

sinto muito, impossível escrever mais neste momento. realmente não dá.

abraços.